O mercado global de bem-estar vive um momento de euforia. Entre 2020 e 2022, o setor avançou 12% e movimentou cerca de 5,6 trilhões de dólares no mundo, segundo o Global Wellness Institute. No Brasil, o segmento alcançou aproximadamente 96 bilhões de dólares, impulsionado sobretudo pelos ramos de cuidados pessoais e alimentação saudável. O crescimento, no entanto, contrasta com um dado incômodo: o país segue liderando rankings de estresse, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, enquanto levantamentos do Ministério da Saúde indicam altos índices de ansiedade, especialmente entre mulheres e jovens.
Para o psiquiatra Arthur Guerra, especialista em saúde mental e estilo de vida, o paradoxo revela limites estruturais do próprio conceito de wellness quando desconectado da realidade social. Ele associa o agravamento dos quadros de sofrimento psíquico a fatores como desigualdade, insegurança econômica, pressão tecnológica e fragilidade de políticas públicas. “Não basta vender equilíbrio; é preciso enfrentar as causas do desequilíbrio”, resume. Guerra defende práticas com respaldo científico, como atividade física regular, sono adequado e alimentação balanceada, sendo pilares reais de promoção de saúde mental, mas ressalta que nenhuma estratégia isolada substitui acompanhamento profissional.
A cientista e influenciadora Mari Krüger acrescenta uma crítica ao viés mercadológico do setor, especialmente no universo dos suplementos. Para ela, a promessa de soluções rápidas ignora a complexidade biológica e emocional de cada indivíduo. “O que funciona para todos, na prática, não funciona para ninguém”, afirma, ao alertar para riscos da suplementação indiscriminada e para o papel do efeito placebo em narrativas de sucesso nas redes sociais. No centro do debate, especialistas convergem em um ponto: bem-estar não se compra em cápsulas. Exige diagnóstico, personalização e, sobretudo, uma abordagem integrada que vá além da estética e alcance as raízes sociais e psicológicas do adoecimento.


