A transição para a menopausa costuma ser associada a ondas de calor e alterações no sono, mas a ciência vem iluminando outro aspecto menos debatido: a mudança na forma como muitas mulheres lidam com a opinião alheia. Pesquisas em neurociência indicam que a queda do estrogênio, hormônio que, ao longo da vida reprodutiva, potencializa circuitos ligados à empatia, conexão social e busca por aprovação, promove uma reorganização cerebral capaz de reduzir a sensibilidade ao julgamento externo. A neurocientista Lisa Mosconi, autora do best-seller O Cérebro e a Menopausa, e a neuropsiquiatra Louann Brizendine descrevem esse processo como uma mudança na priorização da energia emocional: o cérebro passa a investir menos em agradar e mais em preservar recursos internos.
No Brasil, especialistas reforçam que há base biológica para essa transformação. José Maria Soares Júnior, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, explica que estudos de neuroimagem apontam impacto do hipoestrogenismo em áreas como o córtex pré-frontal medial e a amígdala, relacionadas à recompensa social e ao medo da rejeição. Já Isabel Cristina Esposito Sorpreso, também professora da Faculdade de Medicina da USP, destaca que os esteroides sexuais atuam como neuromoduladores centrais, influenciando serotonina, dopamina e ocitocina, substâncias ligadas ao humor e ao vínculo. O resultado não é perda de filtro, mas, em muitos casos, ganho de autonomia emocional. Ainda assim, médicos alertam: mudanças intensas de humor, insônia persistente ou perda de prazer devem ser avaliadas. Entre biologia e trajetória de vida, a menopausa pode marcar menos uma ruptura e mais uma reorientação, da expectativa externa para a escuta interna.


